sábado, 30 de agosto de 2014

Schleuse? What the hell is that? - Text in Portuguese

Tudo começou quando fui convidada para passar uma semana passeando de barco nos lindos lagos em Mecklenburgische Seenplatte.

Para uma pessoa totalmente urbana, que jamais dormiu fora de uma cama na vida, este "longo" período dentro de um barco, dormindo, comendo, bebendo, indo ao banheiro, etc., sem muitas possibilidades de terra firme, apesar de diferente e excitante, parece um tanto assustador a principio.
Por isso demorei aproximadamente um mês pensando no assunto e depois de muitas conjecturas, concluí que seria muito interessante, a experiência de passear calmamente por águas calmas, sem surpresas, sem ameaças, sem estresse.

Com o carro cheio de mantimentos para uma semana, saímos de Berlim em um sábado ensolarado de verão e aproximadamente duas horas depois estávamos em uma marina em Fürstenberg. Foi lá que tomei conhecimento que para passear nos lagos da região teria que passar por incontáveis Schleusen.

© Karla Maragno

"WAS? What the hell is that?"

Olhei no dicionário Alemão/Português o significado da palavra e encontrei "Eclusa" - uma espécie de "elevador" que permite as embarcações subirem ou descerem os lagos, rios ou mares em locais onde há desníveis de água.
© Martin Hagemann
Mais uma vez fiquei meio sem reação tentando imaginar o que na prática essa coisa iria afetar meu passeio de barco. Sabia no entanto que era em vão especular. Eu iria apenas descobrir na prática seu significado. E assim foi.
No primeiro dia, logo nos primeiros quinze minutos de passeio, lá estava ela, minha primeira Eclusa.



Para que o barco fique quietinho dentro deste espaço, é preciso que um dos passageiros alcance um gancho dentro da Eclusa, passe a corda por ele e segure através desta corda o barco. Como só havia eu e uma outra pessoa no barco, e esta outra pessoa o conduzia, era meu dever fazer isso.

"Como assim, alcançar o gancho, passar a corda e segurar o barco?" Perguntei "Eu não sei fazer isso!".

Mas não tinha como não fazer, ou eu fazia, ou não sairia do lago em que estava.





OK. Até que a primeira Eclusa foi tranquila. Era relativamente pequena, haviam poucos barcos e consegui segurar tranquilamente.
"Sorte de principiante", pensei, sem me iludir.
© Karla Maragno





No dia seguinte uma surpresa. Uma fila imensa de barcos diante de uma Eclusa que teríamos que passar. Durante o verão a fila de barcos pode chegar até 4 horas de espera, e então um novo desafio. Segurar o barco na fila.

© Karla Maragno



É preciso mirar com a corda na mão um dos tocos de madeira que ficam ao longo dos lagos, enquanto o barco se aproxima de um deles e então laça-lo. Mais uma vez segurar o barco, tendo todo cuidado para que este não trombe no barco da frente, ou a parte de traz não vá para frente, não atropele os milhares de canoistas que passam, enfim, confesso que nos primeiros tocos a serem alcançados eu me perguntava, "por que mesmo eu não estou visitando algum museu?"

©Martin Hagemann


© Karla Maragno
Se a fila é muito grande significa que você precisará laçar muitos tocos, pois os barcos vão entrando aos poucos nas Eclusas e os de traz avançando até chegar a vez dele. Isso significa, soltar a corda e procurar laçar um toco mais a frente inúmeras vezes. Depois dos primeiros dias percebi que a fila também é parte da diversão das férias no lago. O que me deixou impressionada, é a relação de respeito que as pessoas têm umas com as outras. E o quanto as filas são silenciosas.
As pessoas aproveitam as filas para ler, limpar o barco, dormir, comer, pegar sol, enfim, algo que não incomodará jamais o próximo. Eu me perguntava como seria uma fila de barcos de quatro horas no Brasil. Na minha imaginação era difícil visualizar brasileiros lendo calmamente em todos os barcos. O que minha mente via era cada barco um som alto com músicas das mais diversas disputando entre si. Me divertia imaginando pessoas dançando em cima dos barcos e evidentemente conversas animadas entre desconhecidos.

Mas voltando a minha primeira experiência com uma Eclusa grande. Depois de algum tempo na fila, de toco em toco, ao entrar na Eclusa, não consegui a princípio segurar o barco, o que fez a parte de traz quase bater em outro barco que estava paralelo ao nosso. Foram alguns segundos de pânico. Comecei a ouvir pessoas falando alto comigo e me dando instruções. Me mandavam segurar o barco. Eu já estava segurando com toda minha força, só não estava conseguindo. Comecei a ficar irritada com a insistência de me mandarem segurar o barco. "Será que não estão vendo que eu estou tentando e se o barco não obedece não é algo que faço de propósito?" Começamos então a receber ajuda. Um homem pulou dentro do nosso barco pra tentar impedir um desastre, outro pulou na minha frente para segurar o barco, enfim, foi uma confusão, onde eu fiquei totalmente histérica amaldiçoando a minha recente descoberta: Schleuse.
©Martin Hagemann
Depois da situação estar sob controle, me virei de costas para todo mundo na maldita Schleuse e me recusei a participar da conversa e comentários a respeito do que havia acontecido. O pessoal do barco ao lado nos convidou para uma cerveja mais tarde, outros tentavam algum outro assunto, mas a única coisa que eu queria era sair de dentro daquele inferno. Demorei um certo tempo para me recuperar, mas depois disso percebi que a maioria das pessoas não sabem como lidar com tocos, cordas, ganchos, etc. Tanto que existe um número imenso de pessoas que ficam assistindo o espetáculo das Eclusas, principalmente em cima das pontes onde a visão é melhor, pois a diversão é certa.

A grande parte dos barcos, as mulheres fazem este trabalho enquanto os homens conduzem os mesmos. Existe um certo padrão. Vemos um barco se aproximar com uma mulher tensa na parte da frente segurando uma corda. Em minutos, ouvimos comandos ou gritos dos seus homens que as fazem desesperadas tentando laçar os tocos, os ganchos, segurar os barcos e a platéia se divertindo com as cenas hilárias.
Ficamos sabendo de um certo casal que alugou um barco para passar Lua-de-mel e ao final de uma semana de Eclusas eles terminaram o casamento. Sim elas têm esse poder. Elas muitas vezes roubam a cena, disputando a atenção com a beleza dos lagos. São de fato um capítulo a parte nesta região. E são incontáveis, intermináveis. Em um mesmo dia é possível que se tenha que passar por até seis delas. Inacreditável!
E quando você reclama do cara que trabalha na Eclusa que lhe olha de cara feia e é totalmente impaciente, descobre que pode ser pior sem ele. É que como em quase tudo aqui na Alemanha é auto-serviço, acreditem, existem algumas Eclusas com este auto-serviço também. Aí a coisa fica realmente complicada, pois além de ter que laçar o toco, alcançar o gancho, segurar o barco, é preciso abrir e fechar a Eclusa. As pessoas ficam agitadas, estressadas, confusas, e a fila aumenta ainda mais.


Mas depois, você consegue passar por mais uma, comemora, dança, pula, canta, observa a paisagem, e esquece o que passou.

Karla Maragno


Enfim, depois de uma semana passando diariamente em mais de uma "Schleuse", encontro inúmeras respostas, que vão da diversão,  ao pesadelo, das boas lembranças ao trauma, para, "What the hell is that?"  No meio dos extremos, estão os que apenas as aceitam e acostumam-se com elas.
Não saberia dizer se gosto ou desgosto, mas tenho certeza que indiferentes elas não são. Elas fazem parte das férias de quem está nos lindos lagos, não tem como mudar isso, a não ser que a opção seja conhecer a região pelo lado de fora dos lagos. É muito especial também, mas é totalmente diferente presenciar a beleza da região, vista de dentro dos lagos. E apenas quem vive isso, pode dizer que, gostando ou não das Eclusas, elas valem todo o estresse.






©Martin Hagemann


Estes lagos são realmente "coisa dos alemães". Quase não se ouve outra língua que não seja alemão por aqui. Nem inglês. As bandeiras nos barcos são quase todas alemãs.  De vez em quando encontramos algum russo, polonês ou suíço, mas brasileiro? Não vi nenhum, no entanto, algum gringo as avessas fez questão de "marcar território" com  a bandeira brasileira!






sábado, 16 de agosto de 2014

João Ubaldo Ribeiro - Um Brasileiro em Berlim - Ein Brasilianer in Berlin

O livro de crônicas Um Brasileiro em Berlim, escrito por João Ubaldo Ribeiro, é o resultado de sua experiência dos meses vividos na Alemanha em 1990.
São análises bem-humoradas das diferenças culturais entre os dois países.
A dica para quem se interessa pela língua Alemã, ou quer compartilhar a mesma leitura com algum alemão, é ler na versão bilíngue (português - alemão).  A experiência é muito boa.

Das Buch zeichnet das Leben eines Brasilianers in Berlin nach, João Ubaldo Ribeiro hat es 1990 aufgrund der Erfahrungen seines einjährigen Aufenthaltes in Deutschland geschrieben. Alles in allem eine vergnügliche Analyse der kulturellen Unterschiede zwischen den beiden Ländern. Ein Tipp für alle, die sich für die deutsche Sprache interessieren oder das Buch mit einem Deutschen oder einer Deutschen zusammenlesen wollen, denn es ist als zweisprachige Version (Portugisiesch-Deutsch) erhältlich, eine sehr schöne Erfahrung.